amores bárbaros, alteridades & diferenças  escrito em quarta 22 outubro 2008 00:33

camões, imaginário colonial, literatura de viagens, luso-tropicalismo, mestiçagem, peregrinação


Fazendo ponte para um mapeamento dos mitos luso-tropicalistas representados em Jornada de África, na rota C52, & para discutir, na rota A22, os parâmetros de classificação do outro instituídos pela razão ocidental, o belo poema de Camões transcrito abaixo, & cantado por Zeca Afonso, pode ser lido como uma inscrição dos dualismos que tensionam o “panerotismo” camoniano. Procurando explorar bissemias, ou identificações subversivas, acionadas pelo poema, poderemos conferir até que ponto predomina, seja na pena de Camões ou no desejo intertextual de Sebastião, o “impulso de reconciliação” que, segundo António Saraiva, se contrapõe ao “impulso masculino imperativo” que mobiliza a violência conquistadora do colonialismo. Se considerarmos o proposto panerotismo como expressão matricial da alegada tendência miscigenadora do colonizador português, retomando as idéias de Gilberto Freyre, a leitura a ser empreendida deste poema nos possibilitará por em evidência imagens & valores referenciais para a definição dos critérios europeus de aceitação, ou de recusa, nos intercâmbios culturais -- critérios que são ressignificados como padrões de assimilação das diferenças, nas tradições nacionais mestiças. Nos termos de Francisco Ferreira de Lima, cujo excelente livro nos serve de bússola para este trecho da rota A22, textos como essas endechas nos dão acesso aos significados da “interexperiência” que caracterizou os encontros “descobridores”. Clique aqui para ler um trecho dos capítulos selecionados em O outro livro das maravilhas (o material completo já está na xerox de Letras), ou aqui para baixar outro ensaio do professor Francisco no qual Fernão Mendes Pinto é comparado a Pero Vaz de Caminha.

 

TROVA

(ENDECHAS À BARBARA ESCRAVA)

a üa cativa com quem andava
de amores na Índia, chamada
Bárbora

 

Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas,
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

üa graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbora não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela enfim descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo,
e, pois nela vivo,
é força que viva.

 

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1 comentário(s)

  • intertextualidade

    Sáb 17 Abr 2010 21:56

    BÁRBORA NÃO

    Cantando o poeta em sua escora
    levara na fadiga antiga vinha.
    Ó moço que no leito discorres, cuida,
    arde para que sinal torne tua amiga.
    Contando que a viu em face distinta,
    sua companheira sorriu somente.
    Vai com ele na doce peia que mais não
    pode viver se sabe. Amor, disse, e apôs
    seu nome, sua ventura.
    Então a doce morena mordeu o lábio,
    mais rica, mais leve na canela.
    Porte esguio que a alma aquece.
    Com vagar sorriu, deitou olhar e
    co’as mãos já humedecidas as escondeu.
    “Fico grato, concretamente, de seu fastio
    ou de seu intento.” Calou. Sorriu.
    Sorriu somente.

    José Maria de Aguiar Carreiro
    Folha de Poesia, Junho de 2007
    http://sol.sapo.pt/blogs/josecarreiro/archive/2007/06/10/camoes.aspx


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