o estatuto da "igualdade": reverberações críticas  escrito em sábado 14 novembro 2009 18:18

ÌROHÌN, 08/11/2009
Somente a verdade
Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
Está sempre na moda a produção daquelas representações deformadas e ilusionistas, cujo princípio fundamental é voltar as costas para a realidade. De um lado, William Bonner repete incansavelmente, ao longo de cerca de 250 páginas de seu livro, que “o objetivo do Jornal Nacional é mostrar aquilo que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo naquele dia, com isenção, pluralidade, clareza e correção” (Jornal Nacional – modo de fazer. Editora Globo, 2009).

De outro, o ministro da Seppir e negros do PT e do PC do B repetem em circuito nacional que o Estatuto da Igualdade Racial é a mais importante ferramenta para os negros alcançarem a igualdade real de oportunidades (ver, por exemplo, “Nabuco errou”, artigo publicado por Edson Santos em O Globo, 17.10.2009, p. 7).

A impostura na política, a negação e deformação sistemática da realidade, ganha enfim a contribuição de afro-brasileiros, ansiosos por alcançarem talvez as exigências de ‘relevância histórica’ que lhes permita a consideração benevolente do noticiário do Jornal Nacional. Segundo Bonner, a relevância histórica do fato assegura lugar no noticiário do JN. Tendo ao fundo uma perspectiva histórica que valorize a figura de Joaquim Nabuco, a coisa fica redonda.

O acordo que permitiu a aprovação do projeto esvaziado de Estatuto, com exclusivos fins político-eleitorais, tem duas dimensões, no artigo do ministro: (1) foi costurado entre todos os partidos; (2) foi firmado entre o governo, os partidos e a sociedade civil.

E a prova estaria circulando em cartazes confeccionados pela Seppir, nos quais lideranças negras, decididas a vestir a sunga vermelha do senador Suplicy, manifestam seu apoio ao projeto que “vai destruir a obra da escravidão”. De Suplicy se disse que o episódio desmerecia a imagem dele e a da instituição. Das lideranças negras se poderá, com razão, dizer o mesmo.

Quem assistia ao “Jornal Nacional” na noite do dia 31 de março de 1970, provavelmente viu e ouviu o general Médici (que falou nesse dia em cadeia nacional): “Este governo não fará o jogo de ninguém, mas apenas o próprio jogo. O jogo da verdade. O jogo limpo e claro da Revolução. O jogo do desenvolvimento nacional, o jogo da justiça social, jogo através do qual se fortalecerá na confiança e no apoio de toda a nação”.

O jogo agora é para engrupir negros – todos os partidos, o governo, a sociedade civil empunhando a ferramenta que vai destruir a obra da escravidão. Chega a comover o esforço dessa idealização para promover uma ampla comunidade, sem conflitos, sem que nenhum segmento usufrua dos privilégios racistas, comprometidos todos a não alcançar, está claro, nenhuma objetividade, nenhuma ação concreta.

A acentuada inadequação entre a propaganda e os fatos deve, no curto prazo, desmascarar os artifícios da retórica triunfante. Manipulações dessa grandeza, como se sabe, costumam ter prazo de validade muito exíguo.

Engrupir negros em praça pública, como se pretende fazer em Salvador no dia 20 de novembro, sugerindo uma encenação redentora, e supondo que falar de iniciativas abstratas para esconder o fato de que as iniciativas concretas foram suprimidas do Estatuto é um ato sem conseqüências – pode acabar mal.

É grave equívoco da classe política brasileira imaginar que, sempre que o assunto envolver negros, não haverá elementos suficientes para permitir a distinção entre verdade e mentira. Nos dias que se seguirem à aprovação do Estatuto sobrarão evidências da enorme distância que separa a retórica do ministro da Seppir e aliados da dura realidade vivida pela população negra. A celebração estéril prevista para Salvador tem mais afinidades com o 15 de novembro do que com o 20 de novembro.

O escritor Lima Barreto costumava dizer que a República não foi boa para os negros. Pense, reflita sobre esse aparente paradoxo para que você possa bem dimensionar o abismo de frustrações que se seguiu à Abolição e à proclamação da República. O governo federal, às vésperas da eleição de 2010, parece querer conspirar contra sua própria credibilidade. Estranho jogo esse.

  [imagem: Anna Bella Geiger]

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a diferença indígena & as "caras" do Brasil  escrito em quinta 08 outubro 2009 20:44


“Terceiro mundo, se for / Piada no exterior / Mas o Brasil vai ficar rico / Vamos faturar um milhão / Quando vendermos todas as almas / Dos nossos índios num leilão”. Denunciando a corrupção dos valores e o descaso nacional com a ética, a canção do Legião Urbana QUE PAÍS É ESSE?, selecionada pela Equipe 1 como texto estético para o desenvolvimento do tema Identidade e Diferença, conclui com uma imagem que projeta nas “almas indígenas” uma representação de dimensões fundamentais da identidade brasileira: na canção, “vender” essas almas, mesmo que implicasse em algum enriquecimento material, também significaria a destruição ou alienação de referentes básicos do “ser brasileiro”. Sabemos, entretanto, que o modo de vida dos índios costuma ser taxado de “primitivo”, até mesmo de incivilizado, quase animalesco. Trata-se de um estilo de vida muito diferente do padrão ocidental-europeu que costuma ser apontado como referência principal para a identidade brasileira. Contudo, ao mesmo tempo sabemos que somos todos, no Brasil, meio Macunaíma, meio Iracema. Interessante notar como, para Cazuza, na canção BRASIL, que pode ser ouvida no tocador integrado a esta postagem, o índio dominado pela TV a cores – isto é, pela modernidade -- aparece analogamente como símbolo de um estado de passividade total.

Segundo Stuart Hall, no capítulo As Culturas Nacionais como Comunidades Imaginadas:

As culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. Uma cultura nacional é um discurso - um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre “a nação", sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que dela são construídas.

Considerando, então, as canções selecionadas como exemplares de estórias que conectam presente e passado, produzindo sentidos nacionais, podemos observar como Renato Russo e Cazuza retomam a simbologia do indígena para criticar processos (tais como a globalização capitalista e seus “leilões”, ou a submissão aos “enlatados” televisivos) que parecem estimular o progresso mas acabam comprometendo a construção autônoma e criativa da identidade brasileira. Enfim, num nível profundo, são nas “coisas de índio”, bem como em nossas heranças africanas, que poderemos buscar pelas fontes mais produtivas para a renovação cultural e moral de que o Brasil está tão necessitado, como indicam as canções: é através dessas imagens identitárias que o Brasil poderá mostrar e confrontar e suas muitas “caras”, movimento indispensável para resolver os impasses que paralisam ou degradam a nação.

(volte para o LUSOLEITURAS)

 

 

 

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o racismo como relação de poder  escrito em terça 06 outubro 2009 23:30


Como define e desdobra Paul Gilroy:  

                           

raça é um relacionamento e o racismo um discurso com capacidades metafísicas. Em ambos os casos, investidos de propriedades que confundem as abordagens convencionais para a relação entre racionalidade e irracionalidade. Os discursos raciais trabalham sobre, e com, os sentidos de maneiras distintas, eles geram relações específicas entre palavras, ícones e outros indicadores visuais, colocando o corpo a serviço de repetições miméticas, signos, elisões e performances que ativamente produzem a infra-humanidade, em lugar de apenas classificá-la retrospectivamente. O racismo é, portanto, um sistema que gera os grupos que nós conhecemos como raças, em vez de um conjunto de comentários acerca das diferenças naturais que esses atores encarnam. Estudar a interrelação entre lei racializada e vida racializada a partir de tal perspectiva reclama instrumentos interpretativos particulares. Envolve abordagens em ontologia histórica que demandam sensibilidade para o tipo de problema definido por Ian Hacking como o do nominalismo dinâmico, no qual as coisas que são nomeadas — ‘objetos entre objetos’, mesmo quando se trata de seres humanos, como disse Fanon — interagem com os processos científicos, culturais, econômicos e governamentais que designam essas mesmas coisas.

(Trecho da aula inaugural "Multiculture In Times of War", pronunciada na Anthony Giddens Professorship in Social Theory. London School of Economics and Political Science, 10/05/2006, UK. Tradução minha.)

 

Saber & poder se articulam de maneira insidiosa nas diversas formas de discriminação racial. Pelo racismo, a "verdade" estabelecida nos conflitos entre os povos através da força bruta busca legitimar-se como verdade biológica &/ou cultural. No caso brasileiro, a persistência de valores ideológicos da sociedade escravagista, tais como o desprezo ao trabalho, na vida contemporânea, juntamente com a modelização estética & civilizacional do branco europeu, alimentam a espiral alienante do racismo, o poder dessa idéia para deformar a realidade & a humanidade.

Desenvolvendo este tema, o MUJIMBO acolhe & reverbera uma canção de Gabriel Pensador que foi selecionada pela Equipe 3 da LitPort1 para ser trabalhado como texto literário durante as apresentações:

 

LAVAGEM CEREBRAL

Racismo preconceito e discriminação em geral
É uma burrice coletiva sem explicação
Afinal que justificativa você me dá para um povo que precisa de união
Mas demonstra claramente
Infelizmente
Preconceitos mil
De naturezas diferentes
Mostrando que essa gente
Essa gente do Brasil é muito burra
E não enxerga um palmo à sua frente
Porque se fosse inteligente esse povo já teria agido de forma mais consciente
Eliminando da mente todo o preconceito
E não agindo com a burrice estampada no peito
A "elite" que devia dar um bom exemplo
É a primeira a demonstrar esse tipo de sentimento
Num complexo de superioridade infantil
Ou justificando um sistema de relação servil

E o povão vai como um bundão na onda do racismo e da discriminação
Não tem a união e não vê a solução da questão
Que por incrível que pareça está em nossas mãos
Só precisamos de uma reformulação geral
Uma espécie de lavagem cerebral

Não seja um imbecil
Não seja um ingnorante
Não se importe com a origem ou a cor do seu semelhante
O quê que importa se ele é nordestino e você não?
O quê que importa se ele é preto e você é branco?
Aliás branco no Brasil é difícil porque no Brasil somos todos mestiços
Se você discorda então olhe pra trás
Olhe a nossa história
Os nossos ancestrais
O Brasil colonial não era igual a Portugal
A raiz do meu país era multirracial
Tinha índio, branco, amarelo, preto
Nascemos da mistura então porque o preconceito?
Barrigas cresceram
O tempo passou...
Nasceram os brasileiros cada um com a sua cor
Uns com a pele clara outros mais escura
Mas todos viemos da mesma mistura
Então presta atenção nessa sua babaquice
Pois como eu já disse racismo é burrice
Dê a ignorância um ponto final:
Faça uma lavagem cerebral

Negro e nordestino constróem seu chão
Trabalhador da construção civil conhecido como peão
No Brasil o mesmo negro que constrói o seu apartamento ou quelava o chão de uma delegacia
É revistado e humilhado por um guarda nojento que ainda recebe osalário e o pão de cada dia graças ao negro ao nordestino e atodos nós
Pagamos homens que pensam que ser humilhado não dói
O preconceito é uma coisa sem sentido
Tire a burrice do peito e me dê ouvidos
Me responda se você discriminaria
Um sujeito com a cara do PC Farias
Não você não faria isso não...
Você aprendeu que o preto é ladrão
Muitos negros roubam mas muitos são roubados
E cuidado com esse branco aí parado do seu lado
Porque se ele passa fome
Sabe como é:
Ele rouba e mata um homem
Seja você ou seja o Pelé
Você e o Pelé morreriam igual
Então que morra o preconceito e viva a união racial
Quero ver essa musica você aprender e fazer
A lavagem cerebral

O racismo é burrice mas o mais burro não é o racista
É o que pensa que o racismo não existe
O pior cego é o que não quer ver
E o racismo está dentro de você
Porque o racista na verdade é um tremendo babaca
Que assimila os preconceitos porque tem cabeça fraca
E desde sempre não para pra pensar
Nos conceitos que a sociedade insiste em lhe ensinar
E de pai pra filho o racismo passa
Em forma de piadas que teriam bem mais graça
Se não fossem o retrato da nossa ignorância
Transmitindo a discriminação desde a infância
E o que as crianças aprendem brincando
É nada mais nada menos do que a estupidez se propagando
Qualquer tipo de racismo não se justifica
Ninguém explica
Precisamos da lavagem cerebral pra acabar com esse lixo que é uma herança cultural
Todo mundo é racista mas não sabe a razão
Então eu digo meu irmão
Seja do povão ou da "elite"
Não participe
Pois como eu já disse racismo é burrice
Como eu já disse racismo é burrice

E se você é mais um burro
Não me leve a mal
É hora de fazer uma lavagem cerebral
Mas isso é compromisso seu
Eu nem vou me meter
Quem vai lavar a sua mente não sou eu
É você


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diversidades africanas da língua portuguesa  escrito em sexta 02 outubro 2009 11:16


É cedo para padronizar língua em Moçambique, diz professora

Maputo, 22 set 2009 (Lusa) - A ideia de padronizar "o português moçambicano" é prematura, pois o léxico da língua portuguesa falada em Moçambique "ainda não tem elementos estabilizados", defendeu Perpétua Gonçalves, docente da Faculdade de Letras na Universidade Eduardo Mondlane.

A professora afirmou que é viável manter em Moçambique o ensino da língua portuguesa com um padrão do "português europeu", quando apresentava o tema "O Léxico do Português de Moçambique - Viagem em Busca do Tesouro", que fechou o evento Jornadas de Língua Portuguesa, organizado pelo polo do Instituto Camões em Moçambique.

Em declarações à Agência Lusa, Perpétua Gonçalves ressaltou que "é cedo encetar a padronização do chamado português moçambicano, porque lhe faltam elementos estabilizados e que possam ser assumidos como patrimônio linguístico comum por todos os falantes da versão moçambicana do português".

"Padronizar o quê? Porque os próprios falantes do chamado português moçambicano operam a língua com vários códigos gramaticais pelo fato de estarem inseridos numa comunidade multilíngue e multicultural", ressaltou Perpétua Gonçalves.

Por outro lado, o fato de apenas cerca ou menos de 10% da população moçambicana ter a língua portuguesa como primeira língua retira legitimidade à pretensão de tornar oficial a versão moçambicana do português, ressaltou a pesquisadora.

"Mesmo os moçambicanos mais cultos lidam com a língua portuguesa através das chamadas competências múltiplas, o que significa que não falam da mesma maneira e não oferecem por enquanto material para a padronização da língua", acrescentou.

Por isso, "tentar impor uma tendência comum no trato da língua portuguesa num contexto como o moçambicano pode ser recebido como um choque por parte de determinados segmentos de falantes".

Ensino da língua

Tem presente no evento, Conceição Siopa, leitora portuguesa do Instituto Camões na Universidade Eduardo Mondlane, fez uma "avaliação positiva" das Jornadas de Língua Portuguesa, afirmando que o evento permitiu "de certa forma, uma radiografia do ensino do português em Moçambique e na África Austral".

De acordo com Conceição Siopa, "as comunicações feitas nos dois dias das jornadas mostraram a necessidade de o ensino da língua portuguesa em Moçambique ter como centro as carências dos estudantes e não numa base em que se impõe a perspectiva do professor".

Sobre o ensino da língua portuguesa na África Austral, onde apenas Moçambique e Angola têm este idioma como língua oficial, a docente portuguesa na Universidade Eduardo Mondlane apontou "a necessidade de se capitalizar o forte interesse dos países da região no conhecimento da língua".

"Há uma janela de oportunidade para os falantes da língua portuguesa de Moçambique e Angola aberta pelo crescente interesse dos países da África Austral. O português é já língua de trabalho nas cimeiras da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC)", sublinhou Conceição Siopa.

Fonte: Agência Lusa; Câmara Portuguesa de Comércio

"Guerrilheiros: Momento de Decisão", de MALANGATANA

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histórias de Angola  escrito em sexta 02 outubro 2009 09:03

http://tudosobreangola.blogspot.com/

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